segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Autoconhecimento

Markus saiu da academia e viu na porta, estático, um homem de aparência familiar. Comum, já que conhecia muita gente por ali.
Havia seguranças no ponto de ônibus em frente à sua escola. Dirigiu-se até lá, uma vez que estava em um bairro perigoso. No meio da caminhada, notou que o homem da porta da academia o seguia. Gelou. Apressou-se. Mas esbarrou em uma mulher gorda cheia de sacolas do Farosul - supermercado "do povo" aqui da cidade - que SEMPRE passava ali naquela MESMA hora. Pensando no fato de encontrar-se mais uma vez com a obesa bizarra, não notou que o homem de sobretudo negro estava, agora, ao seu lado. Caminhando. Caminhando. Caminhando. E não parava. Pensou no fato de que é sempre bom manter uma certa distância dos outros quando andamos na rua, a não ser que esse "outro" seja conhecido. E era. Mas não era. Estranho. Para Markus, parecia comum andar ao lado daquele estranho barbudo de casacão até os joelhos, aquelas coisas de europeus - o pior é que estava um calor dos diabos. Como se esperado fosse, o homem falou com Markus:
- Eaí, beleza?
- Sempre! - respondeu firme.
Markus deixou de preocupar-se com o fato de estar dando papo para um estranho. E um estranho BEM estranho - diferente mesmo, fora do normal. Os dois caminhavam juntos como se fossem amigos de infância, ou primos. Ou irmãos, talvez. Markus estava impressionado com o que o friorento estranho falava. Era inteligente, engraçado. Era inspirador.
O ônibus que o conduziria até em casa estava chegando. Era facilmente avistável da parada onde esperavam. Markus já estava se despedindo do homem quando falou:
- Cara, super legal conversar com uma pessoa que nunca vi na vida, que nem conheço. Legal mesmo.
Os dois riram. E, no EXATO momento que o garoto entrava no ônibus, o homem disse:
- Markus, você pode não me conhecer, mas eu te conheço muito bem.
O ônibus arrancou, e, como num impulso, Markus acordou. Sucedido daquele sentimento estranho e angustiante de se acordar depois de um pesadelo. Já era a quinta noite que ele tinha aquele mesmo sonho.

Passou o dia. E aquelas cenas que marcaram a semana não fugiam da cabeça. De madrugada, Markus estava na cozinha preparando um hamburger, como de costume. Era praxe: batia fome, fazia hamburger. Um dos seus cães rosnou. Rosnou alto, com raiva. Era mais um gato, imaginou. Os cachorros começaram a correr, todos juntos, na mesma direção. Como Markus estava dentro de casa, não conseguia ver o que se passava do lado de fora, apenas escutava. E escutou. Escutou passos. Passos humanos. Correndo. Alguém claramente estava invadindo o pátio de sua casa. O coração do pobre rapaz já estava na testa, batendo sem parar, como que dando socos que balançavam até os cabelos da franja. Desligou o fogão, jogou o hamburger ainda cru na frigideira, respingou todo o óleo no chão, correu para seu quarto, apagou a luz e a TV, subiu na cama e olhou pela janela. Lá estava ele. O homem de sobretudo e barba. O estranho-conhecido do sonho. Olhando diretamente nos olhos de Markus. Parou de respirar. Seus globos oculares aumentaram 56,3% naquele instante. O homem seguiu. Saiu. Ainda sem respirar, o garoto viu o homem caminhar firmemente. Retilineamente. Sem olhar para trás. Com certeza de algo que havia feito bem - com competência. Markus acordou de novo. Desta vez, alegre - diferente dos outros pesadelos, aquele o trouxe felicidade, pela primeira vez na semana e, talvez, na vida.
Markus finalmente entendeu. Entendeu o motivo daqueles sonhos. O homem estranho-conhecido era ele. Um futuro-Markus. Alguém que, por mais estranho que pôde ter sido nos sonhos, por vezes até lhe causando medo, lhe trouxe felicidade. O homem era estranho para os olhos esbugalhados e imaturos de Markus, mas sempre foi familiar ao seu coração.