quinta-feira, 23 de abril de 2009

post-it para mim mesma

Tenho dezenove anos, meu nome é Marisa. Sei que é um nome estranho para alguém da minha idade, mas encaro como mais uma coisa que me difere dos outros. Gosto de escrever contos, narrações sobre pessoas comuns, que vivem fatos comuns, lugares comuns. Vidas comuns. Gosto também de estar sozinha. Penso melhor desse jeito. Na maioria do tempo, sou meu próprio entretenimento, porque as histórias que imagino me mantêm ativa e criativa.

Moro em Porto Alegre, desde os onze anos. Meu lugar favorito para escrever é o Parque Farroupilha, mais conhecido como a “Redenção”. Se, um dia, alguém notar uma garota loira escrevendo em um notebook rosa vestindo um touca peruana, sou eu. A touca serve como minha identidade, não sei. Não faço o tipo extrovertida, por isso todos me conhecem por “a guria peruana”, e só. Quero deixar bem claro que são várias toucas, eu não uso a mesma todo dia, viu? Mas voltando: no parque posso sentir-me viva, sentir o vento, sentir o sol. Talvez, a minha ligação com esse lugar seja tão forte porque vivi muito tempo presa em casa, na rotina. Ou também porque pensei em me matar, uma vez. Sério. Foi por causa de um guri. Ele me traiu, e eu simplesmente não consegui superar. Sentia raiva e, ao mesmo tempo, falta dele. Acho que pensei que minha vida ficou sem sentido sem o babaca. Bom, nem eu entendia. O que importa é que agora, mesmo querendo minha antiga vida de volta com aquele imbecil sem coração, estou apreciando o momento. Os pensamentos surgem, parece que escrever fica cada vez mais fácil. Meus pais disseram que eu tenho muito potencial, mas eles sorriram e depois choraram abraçados quando eu sujei minhas fraldas pela primeira vez, enfim, a julgar por esse fato, qualquer coisa que eu faça será perfeito pra eles. Mesmo assim, tenho muito orgulho desse meu “dom”, sei lá. Em breve, vou mandar uma amostra pra essas grandes companhias de televisão. Sei que tenho talento o suficiente. Eles vão adorar.

Tá, mas o motivo verdadeiro para eu escrever aqui é que o Lucas, meu ex, me ligou ontem. Disse que se arrependeu, que mudou, que me quer de volta. Nós choramos muito juntos, como se fôssemos casar na outra semana. Ele ainda falou que, daqui para frente, faria o necessário para que tudo fosse perfeito conosco. Eu até confiei nele. Acredito realmente que pode dar certo, dessa vez. Mas, sabe, eu estou gostando tanto dessa minha vida. Posso estar jogando fora uma chance boa de ser feliz por muito tempo. Mesmo assim, eu quero que as coisas sejam do meu jeito. Quero me sentir viva! Comecei a me amar como nunca antes – mais ainda do que aquela vez que virei uma porca egocêntrica líder do grêmio da escola e todo mundo me respeitava por isso.

Sabe o que eu vou fazer agora? Vou ali para a Redenção, de novo, e escrever sobre um guri de oito anos e meio que se apaixonou pela mãe e pela professora, ao mesmo tempo. Ele vai pedir a mão dela no dia do aniversário dele. É verdade, é uma mulher só. Mas não conte para ninguém. Nosso segredo.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Tá, mas quanto tempo eu tenho ainda?

CAPÍTULO I
Cidade de Waterloo, Iowa, EUA. Ano de 1953.


– Parabéns, Lisa! Você está grávida! – disse o médico.

A indignação dela não surpreendeu o doutor. Afinal, a garota tinha apenas dezesseis anos e nunca fora a uma consulta acompanhada de namorado ou parceiro - deveria ser solteira. Saiu da sala aos prantos e abraçou cada uma das três irmãs, suas melhores (únicas) amigas. Contou ao seu namorado secreto o que havia acontecido. Ele fugiu e Lisa J. D. Morgan ficou sem saber o que fazer. Era muito nova para cuidar de um bebê e, na época que vivia, uma mãe solteira era vergonha para toda uma família. O aborto nem existia ainda, mas os orfanatos estavam por toda parte. Os pais de Lisa, extremamente conservadores, resolveram que dariam a criança para adoção, logo que nascesse. A garota concordou, pois teria que se privar de muita coisa para cuidar de um bebê. Dois dias após o parto, o garoto fora deixado na porta do orfanato de Waterloo.

As semanas seguintes foram massacrantes. Estava deprimida e arrependida. Sabia que o que fizera era certo, porém não conseguia tirar da memória o lindo rosto do bebê, seu cheiro, seu sorriso. Vendo o que acontecia com Lisa, as três irmãs pediram ajuda ao Sr. Francis H. Moulton, uma espécie de psicólogo da vizinhança e grande amigo da família Morgan. O rapaz veio do Reino Unido para os Estado Unidos há cinco anos em busca de emprego. Morava sozinho a alguns andares acima. Os dois se deram muito bem e, durante todo o tratamento, a jovem não falava com ninguém, a não ser com ele. Francis sabia lidar bem com os pais de Lisa. Encobria a depressão dizendo que a garota se sentia feia, gorda, por causa da gravidez. Alguns dias depois, ela parecia, enfim, revigorada, mas ainda quieta. Dessa vez, sua falta de palavras devia-se ao fato de estar apaixonada por Francis. A garota sabia que, apesar da diferença de idade entre os dois, com uma longa conversa e um pedido formal, os Morgan aceitariam o rapaz como genro. Lisa estava em mais um dilema: como iria pedir a mão dele em noivado? Uma mulher não poderia fazer isso em nenhuma circunstância. Seria muito vergonhoso se o rapaz recusasse. Ela acabou desistindo daquilo e seguiu sem falar. Algum tempo se passou, e Francis parou de visitá-la. A garota descobriu que ele havia se mudado para Londres, onde poderia estudar e trabalhar perto de sua família.



CAPÍTULO II
Cidade de Waterloo, Iowa, EUA. Anos de 1953 a 1975.


Lisa não conseguiu lidar com o fato de ter perdido o filho, o namorado, o respeito da família, a dignidade e, se não bastasse, também perdera a única pessoa por quem realmente estava apaixonada. A vida foi injusta com ela. Quis vingança. Entrou novamente em depressão. Dessa vez, o sofrimento durou muito mais.
Tardes vazias em casa. Lugar do qual não saia nem para trabalhar. Era pintora e usava seu porão como atelier. Às vezes, vendia bem, mas isso era raro. Mal sabia ela que os compradores anônimos eram suas próprias irmãs. Todas bem formadas, ricas e com famílias enormes. Lisa tratava seus sobrinhos como filhos, porém as crianças se sentiam desconfortáveis com ela. Era uma mulher estranha que pintava quadros deprimentes, monocromáticos, sem vida – ninguém se sentiria em casa com alguém assim. Certa vez, a irmã mais velha pagou um renomado artista para exibir as obras de Lisa em uma mostra, com o objetivo de fazer com que ela saísse de casa e, conseqüentemente, conhecer outras pessoas, quem sabe até fazer amigos. Qualquer coisa seria melhor do que aquela prisão. Porém, mesmo com muita insistência, Lisa recusou friamente. O que não foi tão ruim, a julgar pelo fato de a mostra ter sido um fracasso total.
Ela “viveu” desse jeito até os trinta e oito anos.



CAPÍTULO III
Cidade de Davenport, Iowa, EUA. Anos de 1975 a 2009.


Desprevenidos, os pais de Lisa voltaram de uma viagem à África portando uma doença que se tornaria muito comum naquele continente e em todo o mundo: a AIDS. As pesquisas haviam recém iniciado. Todos os infectados estavam morrendo rapidamente, sem exceção. Lisa sabia que o tempo de vida deles era pequeno. Mudou-se para a casa da família em Davenport, onde passou a cuidar dos enfermos junto com suas irmãs.
Menos de uma semana depois, quatro dias antes da morte dos Morgan, Lisa foi chamada, sozinha, ao quarto no qual descansavam. Ambos estavam chorando muito, quando fizeram um último pedido:

– Por favor, minha filha, faça sua vida valer à pena. Encontre Francis, encontre nosso neto e seja feliz.

Disseram ainda que os dois estavam em Paris, que haviam procurado. Aquilo corroeu a intocável pintora deprimida e solteira de quase quarenta anos. Seus pais morreram. Ela não chorou. Os anos de tristeza fizeram de seu coração, uma pedra. Lisa tinha os endereços exatos dos dois, mas, mesmo assim, não se mexeu. O tempo passou. Ela continuou pintando. Tinha medo de como seu filho e seu antigo amor reagiriam àquilo, se a julgariam covarde em ser miserável por tanto tempo.
Lisa estava, mais uma vez, perdendo, pra si mesma. Sabia quem ela era, e não tinha força (coragem) para mudar. Era covarde. Sempre fora covarde e, assim, acostumou-se.



CAPÍTULO IV
Cidade de Davenport, Iowa, EUA. Ano de 2009.


– Você tem uma doença muito grave: câncer terminal e, infelizmente, inoperável – disse o médico.

– Tá, mas quanto tempo eu tenho ainda, doutor? – perguntou Lisa.

– Um mês, talvez menos. Aproveite seu tempo! – respondeu.

Boquiaberta, não acreditou. Foram quase vinte segundos ininterruptos de silêncio. Naquele momento, o mundo da Sra. Lisa J. D. Morgan, ainda solteira, ainda sem filhos, ainda covarde, mas, agora, com setenta e dois anos, mudou drasticamente. Saiu do hospital, foi até o aeroporto e iniciou os procedimentos para tirar um visto que a permitiria viajar para França e encontrar aqueles que fariam sua vida valer à pena. Isso demorou quase duas semanas. Nesse meio tempo, Lisa continuou pintando quadros, ainda que deprimentes, mas estava feliz por ter tomado uma decisão corajosa. As irmãs ajudaram na compra das passagens e na estadia, além de pagarem um enfermeiro acompanhante para Lisa, que serviria como guarda-costas e, até mesmo, guia por Paris. Excitada com o que estava vivendo, comprou as passagens para o dia após a aprovação dos papéis. O dia do embarque foi marcante. As quatro irmãs estavam lá, chorando juntas, de novo, como a cinqüenta e seis anos atrás. Mas, dessa vez, era diferente. Elas estavam felizes. Lisa não hesitou ao entrar no avião. A viagem estava perfeita, na primeira classe, com todas as regalias que queria.

Faltando uma hora e meia para o pouso, Lisa teve um ataque do coração. O enfermeiro não pôde fazer nada. Ela morreu dentro do avião. O hospital havia errado no cálculo. Por sorte, ela ainda viveu mais tempo do que o prognóstico correto apontou. Stephanie, Christine e Meg – as irmãs Morgan – não processaram os médicos. Entenderam que Lisa tinha errado muito antes deles.


Ironicamente, a última coisa que ela sentiu, de verdade, foi a coragem. Lisa morreu sem conhecer seu filho e sem dizer tudo que precisava para o antigo e único amor. Mas, pelo menos, morreu sabendo que fez o suficiente para que essas coisas acontecessem. O problema maior é que, às vezes, é tarde demais. Às vezes, é simplesmente tarde demais para mudar.