terça-feira, 14 de julho de 2009

cuentos borgeanos - felicidades


- para ser feliz solo debes entender que eres parte del dolor;

- cuando despertamos tristes, solo debes entender que el remedio es el amor
; como

- cuanto hay de cambio, solo debes entender que el remedio también es el amor.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

four freak friends

Nota do autor: Mais uma viagem do cursinho para casa, de ônibus, meio-dia, com aquele sol na cara que não deixa o cara dormir; vi um Escort XR3, 1991, com quatro seres muito interessantes. Um baixinho dirigindo, uma gorda (mas gorda, goooorda mesmo, sério), um alto e seco e uma dessas loiras aguadas que evidentemente passa água oxigenada no cabelo que sempre fica laranja. Quatro personagens que, uma vez separados, poderiam tranquilamente protagonizar uma dessas teen stories. Pensei em tentar uni-los em uma só. Então, lá vai.



Algum tempo atrás, como de costume, teve noite no fim-de-semana. E a rotina se manteve fiel. Quem tinha o papel de buscar todos em casa e levar à festa era o mais velho do grupo, o Pedro. Um dos guris mais baixinhos que eu já conheci na vida. Ninguém o mediu realmente, porém ele deve ter no máximo 1,4m de altura. Chega a ser ridículo e, portanto, muito engraçado. Sempre é barrado nessas blitz policiais por aparentar ser uma criança de treze anos que roubou o carro dos avós. Todos na cidade o chamam de PM. Ele prefere pensar e dizer que é por uma analogia às iniciais de seu nome e sobrenome (Pedro Machado), mas ele mesmo sabe que não é. A sigla vem de Pouca Merdinha.

A primeira casa que PM passou, foi a de Alberto. Um magricelo do tamanho de um poste. O cara não fala nada, por ser exageradamente tímido. Uma vez, houve um boato de que ele falou com um estranho, para comprar uma rapadura em Cidreira. Tudo que se ouviu foi: “Comprar uma rapadura”. O Atendente entregou o produto. E ele foi embora. Voltou para casa apavorado. Tremendo. Realmente eu não acredito que Alberto tenha feito isso, mas nunca se sabe, não é? Talvez, ele tenha bebido alguma coisa para agir de maneira tão corajosa. Ah, todos na cidade o conhecem como Bicho-Pau (procure no Google que entenderá).

Na mesma rua, o Pouca Merdinha apanhou Jane. Na realidade, não sei o nome dela. Deve ser algo como Rejane, Janeleide, Januza Anne. Só tenho certeza de que não me espantaria se a “graça” dela fosse algo ainda mais terrível que esses bizarros citados. No Orkut, o nick dela é algo assim: →*G*α*и*e*← ‘ ∂αs ρiяiguєtєs #)~. Eu e você sabemos que Jane é com “J”, e que qualquer um que leia isso dirá “GANE”. Agora, vai explicar isso pra ela. Quero ver. Sabe aquele tipo de guria que, se fosse bem vestida, valeria alguma coisa. Que tudo que precisa é de um namorado com bom gosto, um rancho na Renner e um vermífugo dos bons para acabar com a barriguinha nojenta. Aquelas “quase-bonitas”, como diz Christian Pior. O apelido mais utilizado ao referirem-se à Jane é Joelma. Aquela do Calypso. Além de Barriga-de-vermes, Coco-guardado, Prisão-de-ventre etc.

Os três foram buscar a última componente do grupo: a gorda. 174,8 Kg de gorda. A impressão é que, se carneassem a Fabi, como fazem com bois, a carne dela alimentaria tranqüilamente um país subdesenvolvido por alguns meses. Especulam que o fato de o grupo ser composto por só quatro amigos (e não mais) vem de essa gorda ser tão grande que não caberia mais ninguém no carro. No programa “Pânico na TV”, há um quadro em que o Bola tem que beijar uma gorda imensa. Aquela gorda é seca perto da Fabi. Vocês entendem que eu só estou tentando ilustrar bem, certo? A mina é, tipo, ENORME. As pessoas (normais) a chamam de Fabião, Fabizarra, Pós-gorda, Foca-grávida, Corpo-celeste, Big-mac, Guarda-costas-do-Hulk etc.
Enfim, o carro estava cheio (e bem cheio, pesado). Pedro, Alberto, Jane e Fabiana estavam lá. Ou, respectivamente, Pouca Merda, Bicho-Pau, Joelma e Fabizarra – como preferir. A tal baladinha aconteceu em um salão perto da vila Cruzeiro, em Porto Alegre. Dos quinze Reais que Pedro levou para noite, dez ele gastou em estacionamento. Ficou com cincão pra comprar um refri e aquele cachorro-quente esperto.

Chegando ao “Inferninho”, como o local era conhecido, as arriadas proferidas pelos populares ao grupo de quatro seres humanos análogos às infelizes mutações ocorridas com os animais de Chernobyl foram imediatas. Freqüentemente, o alvo primário era a tal gorda. Mais uma vez, não foi diferente. Fabizarra estava vestida toda de amarelo. Me pergunto: pra quê? Um dos que estavam na fila exclamou:

- Olha ali um quindim gigante, brother!

Teve um que ainda comentou com tom de deboche bem evidente:

- Eu nem estou bêbado ainda e já me chamaram um táxi!

É complicado. Engraçado, mas complicado. Como ela nem se estressava mais com isso, tudo ficava bem. Mesmo que ela se deprimisse – o que era raro -, sabia que os seus amigos a ajudariam. Ou não, também. Uma cerveja já estava bom para aquela baleia ficar toda faceirinha. Os guris, Pedro e Alberto, ficaram olhando as garotas “dançarem”, o que já era suficiente para que eles fossem pra casa e... Enfim, “lembrassem” dos movimentos. Sozinhos. No banheiro. Bom, você me entendeu. A Joelma, digo, a Jane foi direto pegar um guri mongolão, lá – Paulo, eu acho. Eles haviam se conhecido em um desses chats do Terra, BOL, UOL, o caralho a quatro. Já chegou à festinha com o pé-morno, como dizem para quem já tem brete garantido. A gorda é a gorda. Estava sempre rondando pela festa fazendo merda e se fingindo de bêbada. A música repentinamente parou. A multidão enlouqueceu e começou a vaiar. Até que um anúncio foi feito:

- Senhor proprietário do Escort XR3, Placa XXX-XXXX, por favor, compareça ao estacionamento.

Era o carro de Pedro. Logo, lá foi o guri. E por vinte minutos ficou. O Bicho-pau foi o primeiro que notou a demora de PM para voltar. Mais 10 minutos foi o tempo que combinaram de esperarem. Esperaram quinze. E nada. Foram todos até o estacionamento. Lá, estava o carro, o Escort preto que nem pé preto do pai do Pedro, mas nada do rapaz. Quatorze segundos passaram-se, desde que notaram a ausência do imbecil, até estarem todos dentro de uma van, cada um com um saco escuro na cabeça e uma arma apontada para suas cabeças. A gorda se debatia feito um peixe (gordo) fora d’água. Complicado. Engraçado, mas complicado. Os guris choravam. A Joelma gritava “A lua me traiu! Acreditei que era prá valer. A lua me traiu! Fiquei sozinha e louca por você!”. Não, estou brincando. Ela apenas pedia socorro.

A Van parou. Mandaram que todos descessem e entrassem em uma casa abandonada – daquelas de filme de terror mesmo, bem clichê (não pensei em nada melhor). Ordenaram que só retirassem os sacos da cabeça quando passasse dois minutos. Foi o que fizeram. Cento e vinte segundos cuidadosamente contatos depois, viram-se presos em uma maloca hermeticamente fechada. Uma parede os separava em duplas. De um lado, Pedro e Jane; do outro, Fabiana e Alberto. O desespero bateu na hora. A gorda usava seu corpo como ferramenta para tentar quebrar as paredes. Tal ato foi prontamente contido aos gritos. Uma vez que perceberam que a baleia seria capaz de destruir a casa inteira, matando os quatro ali mesmo. Quinze horas depois – que na realidade eram apenas quinze minutos, mas fique esse tempo trancado em uma espelunca/cativeiro com mais três imbecis a sua volta pra ver -, eles desistiram de procurar uma saída. Sentaram-se. Pedro, agora, calmo, dava conforto à Jane que não conseguia parar de chorar. Na outra parte do cativeiro, era a Fabagulho que confortava Alberto. O tempo passou. Mais quinze minutos que pareciam horas. E mais quinze. E mais quinze. E mais. Até que estavam lá por exatas quatro voltas completas do ponteiro pequeno. Ninguém apareceu. Perceberam que ficariam ali, eternamente. Morreriam de fome, sede. O desespero era tamanho, que Pedro confessou à Jane que era apaixonado por ela desde aquele lindo show do Belo em cidreira, em 1999 (que noite, amigo!). Ela também disse que sempre quis ter algum rolinho com ele. Beijaram-se. Era uma mistura de êxtase com tristeza. Algo único. Como tudo que acontecia no lado leste da casa, acontecia ao contrário no lado oeste, Fabiana resolveu abrir-se. “Alberto, você é o homem da minha vida”. Ele não disse nada. Era burro. Se falasse alguma coisa ia morrer virgem. Graças a Deus ficou quieto. Foi corajoso, eu admito. Beijou a gorda. O grupo estava lá: separado em casais por uma parede. Amavam-se como nunca, aos pares. Assim foi por mais cinco horas e meia. Naquela casa, ninguém mais era virgem. Quando se deram conta disso, alguém bateu na porta.

- Tem alguém aí? – disse uma voz de velho.

- Socorro! Fomos presos aqui! Ajude-nos! – respondeu Jane.

O tal velho mandou que esperassem, e prometeu trazer ajuda. Pedro estava tão feliz que achou forças para fazer uma piadinha dizendo que não iriam a lugar algum. O Senhor Nalberto apareceu, algum tempo depois, portanto uma marreta, com a qual conseguiu arrombar as portas. Todos estavam livres. Só que em Viamão, uma cidade ao lado de Porto Alegre, mais precisamente na vila São Lucas, perto da famosa Rua Pixinguinha. Enfim, em um fim-de-mundo maldito.

Descobriram mais tarde que era tudo uma brincadeira de um grupo de boyzinhos da Zona Norte. Eles faziam aquilo por diversão. Complicado. Engraçado, mas complicado. Os freekfriends não tiveram coragem de contar o que aconteceu. Seria uma humilhação. Mantiveram segredo. O mais engraçado de tudo é que um casal nunca soube o que acontecia do outro lado do cativeiro, e vice-versa. O que aconteceu entre PM e Jane, ficou entre eles. A mesma coisa aconteceu com Fabiana e Alberto. O fato de ser um “trauma” serviu como desculpa para que não tocassem no assunto. A arriada dos playboys serviu para todos, por mais estranho que possa ser. Serviu tanto para que eles alimentassem seus egos, quanto para criar dois casais. Tudo bem que eles fingem que nada aconteceu, mas aconteceu. Sempre que uma festa começa, lá estão os quatro freekfriends. Sempre que uma festa acaba, lá estão os dois casais. Felizes e imbecis. Afinal, tudo que é escondido é mais legal. Complicado também. Engraçado e legal, mas complicado.

domingo, 21 de junho de 2009

adiante

Ontem e amanhã. Eu fico pensando que quis voltar atrás, tentar não entender jamais. Agora eu finjo que o tempo engole o que vivemos e deixam apenas lembranças. Odeio pensar que quis dormir pra não ter que viver e encarar problemas. E ainda dizem que nada é para sempre. O meu futuro sou eu quem faz, e só. Não deixei de tentar, porque, afinal alguma coisa precisa valer a pena, custe o que custar. Alguma coisa precisa ser exatamente como desejamos, como planejamos, e isso vai demorar pra realizar, precisa demorar.

Pensar mais em coisas úteis e deixar pra depois, bem depois, o medo de ver tudo se perder.

Hoje. Nunca vou deixar de sentir que me importo, mas sempre vou gritar que não importa o que vier daqui, que eu sigo em frente sem saber o fim. Se tu quiser, eu vou esperar por ti, o tempo que for. Comparar tua história com a minha, te pedir uma chance pra acreditar que é melhor pensar - e ter certeza de que a tarde vai te trazer pra casa - pra minha casa. Entendo tua falta de confiança, ou excesso de desconfiança, o que seja. Só não acho justo pra mim. Foda-se, eu aguento qualquer coisa. Tomara que seja melhor assim pra nós dois. Tá na tua mão, e eu não vou mais tocar nesse assunto. Gosto muito de ti pra forçar alguma coisa.

"Vou sempre em frente sem saber o fim. Pra onde eu puder. Quando eu quiser", CARALHO!

terça-feira, 19 de maio de 2009

Ah vá! Cansei :)

Essa é a primeira e a última vez que eu vou falar abertamente sobre o que aconteceu. Então, prestem atenção ;)

Cansei de passar as noites pensando em como dizer o que sinto para as pessoas, como "me explicar". Talvez esse seja o meu problema, sabe? Eu fico muito tempo sozinho, nessa rotina de sempre me impressionar comigo mesmo. To começando a ficar louco se pa. Por isso, vou parar. Não quero mais tocar no assunto "passado". Pode ser necessário, eu sei, mas não vou atrás de ninguém. Eu era um miserável, covarde, sem orgulho próprio e que todo mundo amava. Agora, sou um pau no cu odiado pela massa, um covarde, mas que se ama demais. Ninguém muda simplesmente, ainda mais eu, que me tornei um contraste tão acentuado do que era. No fundo, todo mundo sabe que eu tive motivo para ter mudado. E isso fez com que eu fizesse coisas muito corajosas, as quais merecem ser valorizadas. Não falei nada para ser perdoado. Eu me amo demais, já me perdoei. Parece egoísmo? Não, é egocentrismo só. Graças a Deus (não, graças a mim), descobri o verdadeiro significado dessa palavrinha imbecil que mudou minha vida. A pessoa mais linda que eu já conheci merece minha satisfação, e, apenas, ela. Eu não sei se deixei de ser um pau no cu, que passa os outros para trás, sinceramente. Então, não sejam ingênuos, pelo amor de Deus. SEMPRE tem um Bruno que ta tri afim de pôr a perna para tu cair. Meus amigos, acreditem em mim quando eu digo que não faria isso com vocês. Esse foi o meu problema: uma vez, eu fiz. Caguei. O que me conforta, mesmo assim, é saber que não fui o único a agir desse jeito, entretanto (e é aí que mora minha "defesa") fui sincero com quem me importava. E disse: "Fiz merda". Mas não esperem o melhor de mim, isso não se faz, é muita superestima com qualquer pessoa nesse mundo. Julgar isso é covardia com qualquer pessoa nesse mundo. Ainda bem que eu conheço minha essência. Que ser pau no cu, egocêntrico e o diabo só vale com quem eu NÃO me importo. Nunca vou machucar os MEUS. Ainda bem.

Entenderam a diferença agora? O que eu sinto agora não é mais admiração pela minha própria inteligência, pelo meu ego alimentado. É amor pelo que SOU. Ser puro. Não ser todo amor, nem todo razão, mas um saudável equilíbrio. Tenho muito orgulho de mim. Tenho muito orgulho de ter passado pelo que passei e estar aqui para contar a história. Mas, principalmente, tenho orgulho de conseguir me olhar no espelho, depois de tanto tempo, e dizer do fundo do coração: "Tu vale muito, cara. Parabéns."

Porra. Aqui estou eu tentando provar algo para alguém. De novo, que merda. Será que eu me importo com que os outros pensam? SERÁ? Capaz.

Bom, acabou isso. Se quer saber mais, me procure. Estarei por aí vivendo a minha vida. Curtindo o tempo que vem. E vai ser baxado demais ahahhahahh.


Espero que, em breve, eu escreva um conto feliz né, tá braba a coisa ahahahah Melhor: espero não, prometo.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Bretão descarado (?)

Bruna e Gabriel andavam o tempo inteiro juntos. Formavam uma dupla perfeita: ela, a realista e inteligente; ele, o apaixonado. Todo mundo diz que ele completa ela e vice-versa, que nem feijão com arroz. A guria estava sempre resolvendo os problemas dele, dando conselhos e, às vezes, até, tomando decisões pelo imbecil. Já era de praxe o fato de ela estar sempre com a razão, no final das contas. Gabriel fazia coisas que Bruna não fazia – como pular de Bungee Jump, para-quedas e dizer “eu te amo”. Literalmente, ele não viveria sem Bruna, nem ela sem Gabriel, mas o mais importante é que eles se entendiam muito bem. Compreendiam-se como ninguém. Os dois se falavam mais frequentemente durante a noite, que lhes trazia mais intimidade: sozinhos, ninguém poderia julgá-los. Eram apenas eles ali e todos dormindo. Pareciam únicos no mundo. Também é verdade que se conheciam há pouco tempo, porém o suficiente para as coisas darem muito certo desde então. Gabriel se sentia mais inteligente e Bruna, com certeza, muito mais corajosa.

Gabriel percebeu que seus antigos amigos começaram a evitá-lo. Diziam que ele estava agindo diferente. O guri achou uma possível explicação para isso: Bruna namorava há dois anos com o Rafa, do primeiro ano. Como o cônjuge dela era muito amigo de todos. A gurizada, talvez, estava distante para não se meter naquela situação que tinha tudo para acabar mal, cedo ou tarde. Gabriel não deu a mínima para isso, continuou vivendo intensamente aquela fase perfeita e intensa. Ele sabia que era apenas amizade e nada mais.

O tempo passava, e a afinidade dos dois estava cada vez maior. O gurizão estava conseguindo subir na vida. Conquistando coisas que nunca imaginara que fossem possíveis. Até suas notas na escola estavam boas, o que era incrível com o Q.I. de ameba que tinha. O autoconhecimento dele era todo culpa de Bruna, que facilitava as coisas agindo sempre de maneira pragmática. Assim foi por quase dois meses. Os amigos não eram mais os únicos que evitavam os dois. A família de Gabriel também parecia julgar aquilo uma grande bobagem, mas Bruna sempre aparecia com uma teoria perfeita.

- Talvez, seus pais achem que você não pode ser tão ingênuo a ponto de se entregar tanto para uma pessoa que conhece há pouco. – disse a guria.

Sempre. Sempre era verdade o que Bruna dizia. Dessa vez, porém, ela estava extremamente errada. Gabriel foi levado a um psicólogo. Ele achou estranho no início, mas viu que as coisas começaram a fazer sentido quando o médico disse que a tal guria perfeita não existia. Bruna nunca falava dela mesma. Ele achou que fosse apenas vergonha, por ela ser muito fechada. Tudo que eles viveram tinha sido pura fantasia mental do guri. Bruna estava sempre lá, porque era ele mesmo. Nunca falava dela, porque não tinha o que falar, não tinha história. Os amigos se afastaram, porque ele falava sozinho pelos cantos. A família dele agia diferente, porque ele estava ficando louco. Bruna era uma imaginação.

Gabriel passou dois anos em uma clínica para doentes mentais, mas, mesmo com remédios e ajuda médica, ele nunca se “curou” de Bruna. Mentiu que não havia mais visto a guria para que pudesse receber alta e viver uma vida normal. Hoje, Gabriel tem quarenta e dois anos. Trabalha como diretor geral de vendas em uma das empresas mais ricas do mundo. Ganha tanto dinheiro que não consegue gastar. Casou-se e tem duas filhas – uma modelo de dezoito anos e a bebezinha de quatro meses que é o centro das atenções de toda a família. Gabriel é uma das pessoas mais felizes que conheço. Vive cada dia como se fosse o último. Conquistou tanta coisa. Continua se levantando todas as noites e, na sala dele, ela sempre está esperando para passar horas conversando. Ele suspeita que sua esposa saiba de tudo, mas Bruna sempre diz:

- Ela sabe da gente, e não se importa. Ninguém se importa. Deu certo desse jeito por tanto tempo, e, assim as coisas serão para sempre: perfeitas, guri imbecil.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

post-it para mim mesma

Tenho dezenove anos, meu nome é Marisa. Sei que é um nome estranho para alguém da minha idade, mas encaro como mais uma coisa que me difere dos outros. Gosto de escrever contos, narrações sobre pessoas comuns, que vivem fatos comuns, lugares comuns. Vidas comuns. Gosto também de estar sozinha. Penso melhor desse jeito. Na maioria do tempo, sou meu próprio entretenimento, porque as histórias que imagino me mantêm ativa e criativa.

Moro em Porto Alegre, desde os onze anos. Meu lugar favorito para escrever é o Parque Farroupilha, mais conhecido como a “Redenção”. Se, um dia, alguém notar uma garota loira escrevendo em um notebook rosa vestindo um touca peruana, sou eu. A touca serve como minha identidade, não sei. Não faço o tipo extrovertida, por isso todos me conhecem por “a guria peruana”, e só. Quero deixar bem claro que são várias toucas, eu não uso a mesma todo dia, viu? Mas voltando: no parque posso sentir-me viva, sentir o vento, sentir o sol. Talvez, a minha ligação com esse lugar seja tão forte porque vivi muito tempo presa em casa, na rotina. Ou também porque pensei em me matar, uma vez. Sério. Foi por causa de um guri. Ele me traiu, e eu simplesmente não consegui superar. Sentia raiva e, ao mesmo tempo, falta dele. Acho que pensei que minha vida ficou sem sentido sem o babaca. Bom, nem eu entendia. O que importa é que agora, mesmo querendo minha antiga vida de volta com aquele imbecil sem coração, estou apreciando o momento. Os pensamentos surgem, parece que escrever fica cada vez mais fácil. Meus pais disseram que eu tenho muito potencial, mas eles sorriram e depois choraram abraçados quando eu sujei minhas fraldas pela primeira vez, enfim, a julgar por esse fato, qualquer coisa que eu faça será perfeito pra eles. Mesmo assim, tenho muito orgulho desse meu “dom”, sei lá. Em breve, vou mandar uma amostra pra essas grandes companhias de televisão. Sei que tenho talento o suficiente. Eles vão adorar.

Tá, mas o motivo verdadeiro para eu escrever aqui é que o Lucas, meu ex, me ligou ontem. Disse que se arrependeu, que mudou, que me quer de volta. Nós choramos muito juntos, como se fôssemos casar na outra semana. Ele ainda falou que, daqui para frente, faria o necessário para que tudo fosse perfeito conosco. Eu até confiei nele. Acredito realmente que pode dar certo, dessa vez. Mas, sabe, eu estou gostando tanto dessa minha vida. Posso estar jogando fora uma chance boa de ser feliz por muito tempo. Mesmo assim, eu quero que as coisas sejam do meu jeito. Quero me sentir viva! Comecei a me amar como nunca antes – mais ainda do que aquela vez que virei uma porca egocêntrica líder do grêmio da escola e todo mundo me respeitava por isso.

Sabe o que eu vou fazer agora? Vou ali para a Redenção, de novo, e escrever sobre um guri de oito anos e meio que se apaixonou pela mãe e pela professora, ao mesmo tempo. Ele vai pedir a mão dela no dia do aniversário dele. É verdade, é uma mulher só. Mas não conte para ninguém. Nosso segredo.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Tá, mas quanto tempo eu tenho ainda?

CAPÍTULO I
Cidade de Waterloo, Iowa, EUA. Ano de 1953.


– Parabéns, Lisa! Você está grávida! – disse o médico.

A indignação dela não surpreendeu o doutor. Afinal, a garota tinha apenas dezesseis anos e nunca fora a uma consulta acompanhada de namorado ou parceiro - deveria ser solteira. Saiu da sala aos prantos e abraçou cada uma das três irmãs, suas melhores (únicas) amigas. Contou ao seu namorado secreto o que havia acontecido. Ele fugiu e Lisa J. D. Morgan ficou sem saber o que fazer. Era muito nova para cuidar de um bebê e, na época que vivia, uma mãe solteira era vergonha para toda uma família. O aborto nem existia ainda, mas os orfanatos estavam por toda parte. Os pais de Lisa, extremamente conservadores, resolveram que dariam a criança para adoção, logo que nascesse. A garota concordou, pois teria que se privar de muita coisa para cuidar de um bebê. Dois dias após o parto, o garoto fora deixado na porta do orfanato de Waterloo.

As semanas seguintes foram massacrantes. Estava deprimida e arrependida. Sabia que o que fizera era certo, porém não conseguia tirar da memória o lindo rosto do bebê, seu cheiro, seu sorriso. Vendo o que acontecia com Lisa, as três irmãs pediram ajuda ao Sr. Francis H. Moulton, uma espécie de psicólogo da vizinhança e grande amigo da família Morgan. O rapaz veio do Reino Unido para os Estado Unidos há cinco anos em busca de emprego. Morava sozinho a alguns andares acima. Os dois se deram muito bem e, durante todo o tratamento, a jovem não falava com ninguém, a não ser com ele. Francis sabia lidar bem com os pais de Lisa. Encobria a depressão dizendo que a garota se sentia feia, gorda, por causa da gravidez. Alguns dias depois, ela parecia, enfim, revigorada, mas ainda quieta. Dessa vez, sua falta de palavras devia-se ao fato de estar apaixonada por Francis. A garota sabia que, apesar da diferença de idade entre os dois, com uma longa conversa e um pedido formal, os Morgan aceitariam o rapaz como genro. Lisa estava em mais um dilema: como iria pedir a mão dele em noivado? Uma mulher não poderia fazer isso em nenhuma circunstância. Seria muito vergonhoso se o rapaz recusasse. Ela acabou desistindo daquilo e seguiu sem falar. Algum tempo se passou, e Francis parou de visitá-la. A garota descobriu que ele havia se mudado para Londres, onde poderia estudar e trabalhar perto de sua família.



CAPÍTULO II
Cidade de Waterloo, Iowa, EUA. Anos de 1953 a 1975.


Lisa não conseguiu lidar com o fato de ter perdido o filho, o namorado, o respeito da família, a dignidade e, se não bastasse, também perdera a única pessoa por quem realmente estava apaixonada. A vida foi injusta com ela. Quis vingança. Entrou novamente em depressão. Dessa vez, o sofrimento durou muito mais.
Tardes vazias em casa. Lugar do qual não saia nem para trabalhar. Era pintora e usava seu porão como atelier. Às vezes, vendia bem, mas isso era raro. Mal sabia ela que os compradores anônimos eram suas próprias irmãs. Todas bem formadas, ricas e com famílias enormes. Lisa tratava seus sobrinhos como filhos, porém as crianças se sentiam desconfortáveis com ela. Era uma mulher estranha que pintava quadros deprimentes, monocromáticos, sem vida – ninguém se sentiria em casa com alguém assim. Certa vez, a irmã mais velha pagou um renomado artista para exibir as obras de Lisa em uma mostra, com o objetivo de fazer com que ela saísse de casa e, conseqüentemente, conhecer outras pessoas, quem sabe até fazer amigos. Qualquer coisa seria melhor do que aquela prisão. Porém, mesmo com muita insistência, Lisa recusou friamente. O que não foi tão ruim, a julgar pelo fato de a mostra ter sido um fracasso total.
Ela “viveu” desse jeito até os trinta e oito anos.



CAPÍTULO III
Cidade de Davenport, Iowa, EUA. Anos de 1975 a 2009.


Desprevenidos, os pais de Lisa voltaram de uma viagem à África portando uma doença que se tornaria muito comum naquele continente e em todo o mundo: a AIDS. As pesquisas haviam recém iniciado. Todos os infectados estavam morrendo rapidamente, sem exceção. Lisa sabia que o tempo de vida deles era pequeno. Mudou-se para a casa da família em Davenport, onde passou a cuidar dos enfermos junto com suas irmãs.
Menos de uma semana depois, quatro dias antes da morte dos Morgan, Lisa foi chamada, sozinha, ao quarto no qual descansavam. Ambos estavam chorando muito, quando fizeram um último pedido:

– Por favor, minha filha, faça sua vida valer à pena. Encontre Francis, encontre nosso neto e seja feliz.

Disseram ainda que os dois estavam em Paris, que haviam procurado. Aquilo corroeu a intocável pintora deprimida e solteira de quase quarenta anos. Seus pais morreram. Ela não chorou. Os anos de tristeza fizeram de seu coração, uma pedra. Lisa tinha os endereços exatos dos dois, mas, mesmo assim, não se mexeu. O tempo passou. Ela continuou pintando. Tinha medo de como seu filho e seu antigo amor reagiriam àquilo, se a julgariam covarde em ser miserável por tanto tempo.
Lisa estava, mais uma vez, perdendo, pra si mesma. Sabia quem ela era, e não tinha força (coragem) para mudar. Era covarde. Sempre fora covarde e, assim, acostumou-se.



CAPÍTULO IV
Cidade de Davenport, Iowa, EUA. Ano de 2009.


– Você tem uma doença muito grave: câncer terminal e, infelizmente, inoperável – disse o médico.

– Tá, mas quanto tempo eu tenho ainda, doutor? – perguntou Lisa.

– Um mês, talvez menos. Aproveite seu tempo! – respondeu.

Boquiaberta, não acreditou. Foram quase vinte segundos ininterruptos de silêncio. Naquele momento, o mundo da Sra. Lisa J. D. Morgan, ainda solteira, ainda sem filhos, ainda covarde, mas, agora, com setenta e dois anos, mudou drasticamente. Saiu do hospital, foi até o aeroporto e iniciou os procedimentos para tirar um visto que a permitiria viajar para França e encontrar aqueles que fariam sua vida valer à pena. Isso demorou quase duas semanas. Nesse meio tempo, Lisa continuou pintando quadros, ainda que deprimentes, mas estava feliz por ter tomado uma decisão corajosa. As irmãs ajudaram na compra das passagens e na estadia, além de pagarem um enfermeiro acompanhante para Lisa, que serviria como guarda-costas e, até mesmo, guia por Paris. Excitada com o que estava vivendo, comprou as passagens para o dia após a aprovação dos papéis. O dia do embarque foi marcante. As quatro irmãs estavam lá, chorando juntas, de novo, como a cinqüenta e seis anos atrás. Mas, dessa vez, era diferente. Elas estavam felizes. Lisa não hesitou ao entrar no avião. A viagem estava perfeita, na primeira classe, com todas as regalias que queria.

Faltando uma hora e meia para o pouso, Lisa teve um ataque do coração. O enfermeiro não pôde fazer nada. Ela morreu dentro do avião. O hospital havia errado no cálculo. Por sorte, ela ainda viveu mais tempo do que o prognóstico correto apontou. Stephanie, Christine e Meg – as irmãs Morgan – não processaram os médicos. Entenderam que Lisa tinha errado muito antes deles.


Ironicamente, a última coisa que ela sentiu, de verdade, foi a coragem. Lisa morreu sem conhecer seu filho e sem dizer tudo que precisava para o antigo e único amor. Mas, pelo menos, morreu sabendo que fez o suficiente para que essas coisas acontecessem. O problema maior é que, às vezes, é tarde demais. Às vezes, é simplesmente tarde demais para mudar.