Tenho dezenove anos, meu nome é Marisa. Sei que é um nome estranho para alguém da minha idade, mas encaro como mais uma coisa que me difere dos outros. Gosto de escrever contos, narrações sobre pessoas comuns, que vivem fatos comuns, lugares comuns. Vidas comuns. Gosto também de estar sozinha. Penso melhor desse jeito. Na maioria do tempo, sou meu próprio entretenimento, porque as histórias que imagino me mantêm ativa e criativa.
Moro em Porto Alegre, desde os onze anos. Meu lugar favorito para escrever é o Parque Farroupilha, mais conhecido como a “Redenção”. Se, um dia, alguém notar uma garota loira escrevendo em um notebook rosa vestindo um touca peruana, sou eu. A touca serve como minha identidade, não sei. Não faço o tipo extrovertida, por isso todos me conhecem por “a guria peruana”, e só. Quero deixar bem claro que são várias toucas, eu não uso a mesma todo dia, viu? Mas voltando: no parque posso sentir-me viva, sentir o vento, sentir o sol. Talvez, a minha ligação com esse lugar seja tão forte porque vivi muito tempo presa em casa, na rotina. Ou também porque pensei em me matar, uma vez. Sério. Foi por causa de um guri. Ele me traiu, e eu simplesmente não consegui superar. Sentia raiva e, ao mesmo tempo, falta dele. Acho que pensei que minha vida ficou sem sentido sem o babaca. Bom, nem eu entendia. O que importa é que agora, mesmo querendo minha antiga vida de volta com aquele imbecil sem coração, estou apreciando o momento. Os pensamentos surgem, parece que escrever fica cada vez mais fácil. Meus pais disseram que eu tenho muito potencial, mas eles sorriram e depois choraram abraçados quando eu sujei minhas fraldas pela primeira vez, enfim, a julgar por esse fato, qualquer coisa que eu faça será perfeito pra eles. Mesmo assim, tenho muito orgulho desse meu “dom”, sei lá. Em breve, vou mandar uma amostra pra essas grandes companhias de televisão. Sei que tenho talento o suficiente. Eles vão adorar.
Tá, mas o motivo verdadeiro para eu escrever aqui é que o Lucas, meu ex, me ligou ontem. Disse que se arrependeu, que mudou, que me quer de volta. Nós choramos muito juntos, como se fôssemos casar na outra semana. Ele ainda falou que, daqui para frente, faria o necessário para que tudo fosse perfeito conosco. Eu até confiei nele. Acredito realmente que pode dar certo, dessa vez. Mas, sabe, eu estou gostando tanto dessa minha vida. Posso estar jogando fora uma chance boa de ser feliz por muito tempo. Mesmo assim, eu quero que as coisas sejam do meu jeito. Quero me sentir viva! Comecei a me amar como nunca antes – mais ainda do que aquela vez que virei uma porca egocêntrica líder do grêmio da escola e todo mundo me respeitava por isso.
Sabe o que eu vou fazer agora? Vou ali para a Redenção, de novo, e escrever sobre um guri de oito anos e meio que se apaixonou pela mãe e pela professora, ao mesmo tempo. Ele vai pedir a mão dela no dia do aniversário dele. É verdade, é uma mulher só. Mas não conte para ninguém. Nosso segredo.
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